Desde o meu 10º ano que não tenho tido grandes ambições em relação ao meu futuro, comecei logo mal na escolha do curso de ciências e tecnologias, que para mim teria de ser a única opção já que, pelas palavras da minha mãe, os outros cursos eram para burros... Ela nunca desejou que eu fosse médica ou que eu descobrisse a cura para o cancro, daí eu não perceber a insistência dela neste curso. Não sei se foi o aconselhamento da psicóloga da escola no 9º ano, se foi para eu não me separar das minhas amigas... Enfim, já me conformei que vão sempre existir coisas que eu nunca vou saber o porquê de terem acontecido.
Mais tarde, no meu degradante caminho no secundário foi quando conheci pessoas como eu. Fiz amigas que também eram gays e já tinham feito grandes progressos nesse aspecto, enquanto eu ainda andava a namorar às escondidas de tudo e de todos. Foi nesta altura que decidi contar à minha mãe, pela primeira vez ia confiar nela e ia partilhar com ela uma grande parte de mim, que me tinha sido muito difícil aceitar.
Contei-lhe, quase ia recuando, mas ela insistiu e então, eu disse - "gosto de raparigas" e ela perguntou, como se tivesse ouvido mal, - "O quê?" e eu voltei a dizer - "Sim mãe, tu ouviste, eu gosto de raparigas"... E é mais ou menos a partir deste momento em que eu começo a sentir-me culpada por tudo o que acontece nas relações com a minha família, amigos, namoradas... Não me sinto culpada ou arrependida por lhe ter contado, apesar de nos primeiros tempos ter sido uma coisa muito má em que eu pensei que a minha vida ia ficar péssima ou até mesmo acabar, sinto-me culpada mas sim pelas situações que vieram depois desta revelação. Sentia que o meu segredo tinha deixado a minha família numa situação depressiva, senti que quando me chateava ou tentava mostrar um ponto de vista a um amigo ou à minha namorada, as pessoas chateavam-se comigo de volta, não queriam reconhecer os erros delas. Estas coisas ainda vão acontecendo e ainda estão presentes na minha vida, eu não sei se em parte a culpa é minha por ter tanta facilidade em assumir os meus erros, que acabo por assumir também os das outras pessoas, se as pessoas se aproveitam dessa fraqueza que tenho, ou se são mesmo demasiado orgulhosas e preferem chatear-se de volta com quem está realmente triste e magoado.
São também outras coisas sobre as quais tenho a sensação que nunca vou saber as respostas.
Mas felizmente, hoje em dia, a minha vida não são só tristezas, hoje consegui candidatar-me a um curso de especialização tecnológica. Agora basta trabalhar para conseguir atingir alguma coisa. Não posso falar como se eu nunca tivesse tido sucesso, porque tive, a minha vida nos últimos tempos era só estar em casa e trabalhar para os meus projectos musicais e culturais, mas estes e outros projectos deram frutos, que têm algum reconhecimento, só não são o suficiente para assegurar um futuro.
A minha namorada, na noite passada, fez questão de me lembrar dessas coisas boas que eu já atingi, deixou-me muito feliz porque eu estava mesmo a precisar de ouvir aqueles elogios, depois do pai dela ter falado sobre assuntos que não conhece... Amo-te mulher da minha vida @
Bem, só posso esperar que pelo menos uma vez na vida as coisas corram como o esperado, espero que o que já passei nas mãos destes erros ou azares seja compensado e espero que esse momento esteja perto.
Depois de tanto, que aqui escrito parece tão pouco, eu ainda tenho esperança, espero dar um pouco disso a mais alguém que leia os meus desabafos.
Até à próxima!
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